Seleção de Idioma

Sexta-feira, 19 de Abril de 2019

MC EXPLICA

V.Volke - 22/08/2018

Conhecemos o DNA do trigo! Mas… isso importa?

Comemorando a matéria de número 500 do MC, nosso especialista explica como o anúncio da descoberta do genoma completo do trigo é uma revolução incrível para a alimentação humana

Minhas caras, meus caros. Este MC Explica é diferente dos demais. Por quê? Uma pergunta válida, porém óbvia. Tanto que já me adiantei a ela e aqui vai a sua resposta: porque este é um artigo especial. Eu só disse que a pergunta era óbvia, não que a resposta também o seria.

Deixe-me explicar. Este MC Explica é uma comemoração. Uma comemoração de dois fatos coincidentes: de um lado, a matéria de número 500 do MC e, do outro e, certamente, ainda mais importante, uma das maiores revoluções na história da ciência dos alimentos: pesquisadores de diversos países conseguiram, após mais de uma década de cooperação, descrever completamente o DNA do trigo.

Não consigo pensar em uma forma melhor de comemorar essa feliz coincidência de fatos do que mostrando a vocês, minhas caras e meus caros, por que conhecermos o genoma completo do trigo é um feito que pode mudar, para sempre, o nosso futuro.

D-N-O QUÊ?
Antes de começarmos, porém, tenho que fazer uma breve pausa em prol daqueles que passaram aquela aula de biologia molecular olhando mais pro celular do que pra lousa – não se preocupem, eu entendo. Fiz igual na minha época (sim, não sou tão velho assim). Voltando. Tenho que definir duas coisas, de forma rápida e indolor, claro, para garantir que todas e todos possam apreciar essa conquista da Humanidade.

1. O DNA nada mais é do que uma molécula que faz parte de todos os organismos vivos deste planeta. É uma molécula muito interessante e que, apesar de servir para determinar a paternidade em programas de TV tragicômicos, tem uma função muito mais importante: é o DNA que comanda a vida no planeta. É o DNA que dita todas as características de um ser vivo: qual sua espécie, como ele vai se desenvolver, como ele será quando desenvolvido, qual sua cor, qual seu tamanho; enfim, o DNA é “o alfabeto com o qual se escreve as receitas” da vida.

2. O genoma é, simplesmente, o conjunto completo das ‘receitas’ escritas no DNA. Essas ‘receitas’ nós chamamos de genes e o seu conjunto completo em um tipo de ser vivo, ou seja, o ‘livro de receitas’ daquela espécie é o seu genoma ou código genético (como gostamos de chamar).

Pronto. Não disse que seria rápido e indolor? Agora sim, vamos ao que interessa.



TRIGO, TRIGO E MAIS TRIGO
Há mais ou menos dois parágrafos, eu disse que a descrição completa do genoma do trigo era uma conquista para a Humanidade. Não foi um exagero: o trigo é o vegetal mais cultivado por nós, chegando a ser responsável por um quinto de toda a energia consumida por pessoas no mundo todo. Além disso, com tamanha importância para a alimentação e para a agricultura humana, o rendimento e a qualidade das safras de trigo são de importância extrema para a economia e para a sobrevivência de bilhões de pessoas.

Porém, o trigo também é um dos vegetais mais complexos que conhecemos. Apesar dos avanços na adaptação e melhora de rendimento nas safras que se conseguiu desde a década de 1960, as tentativas de cruzar e melhorar o trigo para atender às crescentes necessidades da população e mudanças climáticas vinham sendo extremamente dificultadas pela falta de conhecimento disponível sobre o genoma da planta. Com um genoma mais de cinco vezes maior que o nosso (genoma de humanos), resultado da junção de três outros vegetais ancestrais, e com mais de 85% de genes repetidos, não é de se surpreender que o DNA do trigo foi muito difícil de se compreender até hoje. Felizmente, esse desafio acabou de ser superado.

IWGSC, SEU LINDO
Melhorar as safras de trigo é um desafio não só monumental, mas necessário para a Humanidade. E entender o código genético do trigo era o seu pré-requisito. Por isso, em 2005 foi criado o Consórcio Internacional de Seqüenciamento do Genoma de Trigo (ou IWGSC para evitar a fadiga). Formada por agricultores, cientistas, agências de pesquisa governamentais e empresas privadas, essa organização reúne mais de 1.500 membros em 60 países e tinha como objetivo principal decodificar todo o código genético do trigo – acho que é seguro dizer, hoje, que eles obtiveram sucesso.

Em 13 anos de trabalho, mais de 200 cientistas de 20 países cooperaram para, no dia 17 de agosto de 2018, publicar um artigo na revista Science descrevendo completamente todos os genes contidos no DNA do trigo, incluindo mecanismos de expressão e regulação gênica.

Ou seja, minha astuta leitora, meu astuto leitor, em outras palavras, o que os dedicados pesquisadores do IWGSC conseguiram nesses 13 anos foi o equivalente a traduzir um gigante livro de receitas de trigo, de mais de cinco volumes, incluindo aquelas mínimas notas de rodapé. Deixando o livro pronto para ser lido e adaptado por qualquer pessoa com interesse em deixar essas receitas ainda mais deliciosas. Quer dizer, no caso onde esse livro de cinco volumes é nanoscópico e demanda técnicas absurdamente complexas de bioquímica para se ler e traduzir. Por isso foi difícil. Por isso demorou tanto. Por isso foi tão incrível.

PLANTANDO AS SEMENTES DO FUTURO
A população humana só tende a crescer nas próximas décadas. Some a isso o fato de a disponibilidade de terras para o cultivo de alimentos estar cada vez menor e as mudanças climáticas causadas por nós mesmos serem cada vez mais ameaçadoras para a agricultura e nosso planeta. Fica fácil ver o porquê da necessidade urgente de avanços no cultivo de certos alimentos-chave: e o trigo é um deles.

Com essa conquista do IWGSC, porém, a Humanidade tem mais uma arma para superar os graves desafios que ameaçam a nossa espécie e todo o nosso planeta. Só considerando o caso do trigo, as possibilidades para a agricultura do futuro são infinitas: poderemos criar variedades de trigo que darão safras mais rapidamente ou que não causarão alergias alimentares; ou então ter plantas mais resistentes a insetos para reduzir o uso de agrotóxicos; ou ainda adaptar espécies de trigo a ambientes mais quentes e expandir as zonas onde se pode plantar esse vegetal tão importante.

As possibilidades para o trigo são infinitas. E, além disso, com essas portas recém-abertas, quem sabe qual será o limite para as próximas conquistas genéticas dos nossos alimentos?

Seja como for, uma coisa está clara: o trabalho pioneiro e maravilhoso do IWGSC é um marco, não só na Ciência de Alimentos, mas no futuro da Humanidade e deve sim ser comemorado por todas e todos nós.

TIRE O SEU CHAPÉU TAMBÉM
Então, da próxima vez que você for comer um pão, um bolo, uma batata, uma ervilha; enfim, da próxima vez que você for comer o que quer que seja, olhe bem para o seu alimento. Olhe bem para ele e veja o quanto de tempo, de esforço e de conhecimento foram investidos a cada século que passou, a cada geração que veio e que se foi. Tudo, para que esse singelo alimento pudesse estar no seu, no meu, no nosso cardápio. Assim, quando você o fizer, sorria e fique feliz de saber que você, quer queira ou não, você faz parte desse ciclo tanto quanto os cientistas ou qualquer outra pessoa que se alimenta: todas e todos nós fazemos parte do futuro dos alimentos de uma maneira ou de outra.

Exatamente por isso, essa conquista, que parece tão abstrata e distante, importa. Porque ela não é só uma conquista dos dedicados pesquisadores do IWGSC. Ela é uma conquista que já mudou o futuro de todas aquelas e de todos aqueles que se alimentam. Ela é uma conquista que já mudou o futuro da Humanidade.

Por fim, deixo este último parabéns e me despeço de vocês, minhas caras leitoras e meus caros leitores, nessa data tão especial para o MC e para a Humanidade, desejando que o futuro dos alimentos, o futuro do MC e os seus futuros sejam ainda mais deliciosos do que tudo aquilo que já provamos. Até lá.