Pinhão ganha mercado na culinária brasileira

Pesquisadores do Paraná buscam novas variedades de araucária para preservar a produção e ações incluem até concurso para premiar a maior pinha.

Uma semente com o dobro do peso das tradicionais promete fazer a felicidade dos amantes de pinhão e dos agricultores que quiserem investir nessa produção. Uma variedade da araucária ‘angustifólia’, quase que exclusiva do Brasil, que produz essas sementes, vem sendo clonada com sucesso no Paraná. Ela oferece um pinhão com entre 14 e 16 gramas, enquanto os tradicionais têm em média 7 gramas, informa o professor Flávio Zanette, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A colheita do pinhão é permitida a partir de 1º de abril, baseada em portaria que define as características de maturação. O pinhão colhido ainda verde tem seu sabor totalmente alterado e traz risco para a saúde, pelo desenvolvimento de fungos, explica o especialista. “Pelo alto teor de umidade, ele pode desenvolver fungos, inclusive tóxicos para o homem, se for colhido verde e mantido abafado”, acrescenta. Zanette orienta que o pinhão deve estar firme e apresentar coloração amarela/marrom brilhante.

A semente, diz, é de mais fácil digestão quando assada, do que cozida em água e, por mais difícil que pareça ser abrir a casca, já há uma série de produtos no mercado para auxiliar nessa tarefa. Zanette não recomenda que seja feita qualquer abertura na casca antes do cozimento, o melhor é que o calor chegue nele sempre com a proteção da casca.

PREÇOS ABREM EM ALTA
O interesse pelo produto vem crescendo. Um sinalizador dessa tendência é o preço. Este ano começou em R$ 12 o quilo no Mercado Municipal de Curitiba, até o final da safra deve chegar a R$ 20. No ano passado abriu em R$ 8 o quilo.

Uma das ações para estimular o consumo foi o lançamento pela Embrapa do livro O Pinhão na Culinária, cotendo 60 receitas salgadas e 40 doces. Lançado em 2014, duas edições já se esgotaram e está sendo encomendada a terceira, conta a pesquisadora da Embrapa Florestas, Rossana Catie Bueno de Godoy, que participou do preparo do livro.

“Há um interesse maior pelos alimentos mais tradicionais, as pessoas estão tomando mais consciência e essa parte gourmet cresceu muito no Brasil e no mundo, com testes de novas receitas, resgate de pratos típicos, uma procura maior por alimentos mais saudáveis”, diz Catie.

QUALIDADES NUTRICIONAIS
As qualidades do pinhão ainda são relativamente pouco conhecidas. Rico em fibras, contribui para a prevenção de doenças intestinais e cardiovasculares, pela redução do colesterol e dos triglicerídeos. É composto de minerais como cobre, manganês, ferro e cálcio, e ainda se destaca no fornecimento de potássio, que evita a hipertensão arterial.

RECEITAS CASEIRAS E PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS
Além do livro de receitas, a Embrapa está criando produtos com pinhão, entre os quais um snack feito a partir da farinha de pinhão extrusada; um trabalho também está em curso junto com a Embrapa Rio para desenvolver um biscoito recheado. Catie conta que em testes para produção de pré-misturas para bolo sem glúten, a farinha de pinhão conferiu uma estabilidade melhor à massa do que a de arroz utilizada usualmente.

De acordo com a pesquisadora, um dos desafios para aumentar o consumo do pinhão é conseguir preservá-lo por maior tempo, uma vez que a semente perde as propriedades, principalmente textura, com o armazenamento por prazo superior a 30 dias depois de colhido. Se conseguir que fique mais tempo no mercado vai escalonar melhor a oferta, ampliar o período de oferta. “Se transformamos em algum produto também aumentamos a oferta no mercado. Como produto processado, tem durabilidade maior, igual os outros”, afirma.

A pesquisadora diz que a grande preocupação é que a araucária, cujo corte é proibido por lei, tem sido retirada ainda pequena nas áreas remanescentes para evitar problemas legais e, com isso, a planta vai perdendo a capacidade de regeneração. Por essa razão, os pesquisadores procuram alternativas que valorizem o pinhão.

CONCURSO PARA COMBATER EXTINÇÃO
E a busca por variedades mais produtivas continua. A UFPR está promovendo ‘O concurso da Pinha Gigante’, cujas inscrições vão até o próximo dia 5 de junho e premiará com mudas os três primeiros colocados, que trouxerem as maiores pinhas. O objetivo é localizar essas árvores para depois cloná-las, produzindo mudas com a mesma qualidade, buscando assim a preservação das araucárias angustifolia, segundo Zanette, espécie quase exclusiva do Brasil que caminha para a extinção.

Encontrada originalmente na zona de serra de Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo e principalmente nos planaltos gaúcho, catarinense e paranaense, a semente da araucária brasileira tem características muito diferentes das poucas que existem fora do Brasil, como na Argentina e no Paraguai, que são muito pequenas e também estão desaparecendo, conta Zanette.

“O Brasil é o único produtor no mundo”, afirma o professor da UFPR. Entretanto, por aqui também falta política de incentivo ao plantio, alerta Zanette que estuda as araucárias há mais de 30 anos. Produzimos anualmente entre 8 mil e 9 mil toneladas da semente. Paraná e Santa Catarina respondem por cerca de 7 mil delas.