Brasil vai usar ressonância para análise de alimentos

Embrapa e FIT desenvolvem tecnologia que permite verificar características de produtos embalados, sem que seja preciso destruir amostras.

A Embrapa está desenvolvendo um método que permite usar ressonância magnética de baixo campo para avaliar, em segundos, características dos alimentos como doçura, quantidade de gordura e pureza de produtos ‘in natura’ ou industrializados, sem a necessidade de destruir a amostra, ou sequer abrir a embalagem, desde que a mesma não seja metálica. Diferentemente dos aparelhos de ressonância magnética mais conhecidos por seu uso na realização de exames laboratoriais em pacientes, neste caso não são as imagens, e sim o tempo de desaparecimento do sinal de ressonância que indica rapidamente as características dos alimentos, informa o bioquímico e pesquisador do Laboratório de Ressonância Magnética da Embrapa Instrumentação (SP), Luiz Alberto Colnago.

O aparelho e o software que vão viabilizar que as análises sejam feitas sem destruir a amostra estão sendo desenvolvidos pela empresa Fine Instrument Technology (FIT), de São Carlos (SP), e os primeiros testes devem iniciar na Embrapa em outubro próximo, de acordo com o físico e sócio da FIT, Daniel Consalter. “Um aparelho desses que existem em hospitais nos daria muitas informações, só que o preço é exorbitante e cada análise custaria uns R$ 500, então o que fizemos foi desenvolver um método que usasse um aparelho mais simples, e que os testes fossem muito mais rápidos”, afirma Colnago.

O bioquímico esclarece: “Irradiamos a amostra e leva um tempo para emitir o sinal. Em uma laranja, por exemplo, quanto mais doce mais rápido o sinal some”. De acordo com Colnago, a metodologia permite obter os resultados em segundos. A Embrapa vem desenvolvendo há cerca de seis anos um banco de dados que viabilize essas análises.

Algumas aplicações já estão prontas e permitem avaliar características como: doçura de uma laranja, quantidade de gordura e cor da carne, mesmo sem abrir um pacote; quantidade de gordura presente na maionese, em molhos de salada; volume de água presente em molhos como mostarda; presença de alguns elementos no vinho identificando a origem. Muitos outros produtos poderão ser avaliados, dependendo da formação do banco de dados para cada um deles. “O produtor vai conseguir prever quanto doce vai ser o mamão quando ele ainda estiver verde”, exemplifica o pesquisador da Embrapa. O usuário informa o produto que está sendo avaliado e recebe um dado numérico, em uma balança.

MAIS APARELHOS
A FIT já está produzindo equipamentos de ressonância magnética nuclear para análise de alimentos, o SpecFit, entretanto, esses aparelhos admitem amostras de até 40 milímetros de diâmetro. O novo equipamento deve permitir análises de amostras com até 10 centímetros de diâmetro, atingindo a maioria dos produtos vendidos no supermercado, informa Consalter. A empresa está desenvolvendo um magneto que comporte essas amostras maiores. Para isso, conta com financiamento de R$ 400 mil da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

“Será um equipamento de bancada, a parte eletrônica é como uma CPU de computador, o magneto terá as dimensões de uma TV de 30 polegadas”, esclarece Consalter. O físico avalia que inicialmente o público do novo aparelho será formado por órgãos fiscalizadores e centrais de compra como a Ceagesp, em São Paulo, até chegar aos supermercados.

PROJETOS EM DESENVOLVIMENTO
Juntamente com a USP (Universidade de São Paulo) e a Victoria University of Wellington, de Nova Zelândia, a FIT está desenvolvendo também um equipamento de ressonância magnética de alto campo que permitirá, entre outras aplicações, obter imagens de pequenos animais, de frutas e sementes.

A diferença para o que se tem no mercado hoje é que ele incorpora uma tecnologia que dispensa o uso do hélio líquido para manter as baixas temperaturas necessárias ao magneto. O aparelho também terá um uso diversificado permitindo a análises de semente para acompanhar doença, e podendo medir outros parâmetros dos alimentos em geral. Consalter afirma que a ressonância é uma das técnicas mais precisas do mundo.